Nº 202: Sweet Sixteen
À data de: Março / 2002
Escrito em: janeiro/2006
Sixteen years,
Sixteen prayers,
Sixteen reasons why I care
Sixteen tears,
You’ re sixteen still,
Sweet Sixteen…Girl *
Gustavo nunca foi do tipo muito perspicaz. E seu estado sonolento ao chegar à GV não melhorava em nada essa característica. Porém, em uma fria manhã de março, percebeu uma estranha movimentação em sua sala de aula.
Com a cara ainda fechada do mau humor matutino, via que algumas meninas cochichavam e olhavam preocupadas para algum ponto que ele ignorava.
- Ow, Rick, o que tá acontecendo aqui? - perguntava ao colega semi-dormindo com a cabeça apoiada na parede.
- Sei lá, cara… essas meninas acordaram da pá virada hoje.
Neste momento, a professora de Português entrava na sala, com o seu costumeiro “Bom Dia, alunos!” que não animava ninguém. Meio perdido entre Machados de Assis e Fernandos Pessoa, Gustavo focou no ponto ignorado por ele antes e alvo das conversas anteriores.
Era uma garota. De cabelos castanhos claros, curtos. Estava com o rosto inchado e olhos vermelhos. Não parecia estar na sala, mas em algum ponto distante no Universo. Captava alguns fragmentos de conversas:
- Jô, sabe aquela menina ali?
- Que menina?
- Aquela de blusa amarela!
- O que tem ela?
- Tão comentando por aí que ela está…
- Quietas, vocês duas aí no fundo! - gritava a professora interrompendo a conversa das meninas.
- Poxa, justo agora que elas iam falar o que tá acontecendo a… - Ricardo não chegou a terminar a frase, a professora o mandou à Maria da Glória neste exato instante.
- Mas eu não…
- Quero silêncio absoluto! Vocês estão impossíveis hoje! - dizia a professora, colocando as mãos na cintura em um claro gesto de desaprovação, enquanto Ricardo caminhava em direção à porta. Sabia que não era aconselhável discutir com essa professora.
A aula correu quase normal. Alguns alunos trocavam bilhetes, faziam alguns comentários abafados e escondidos pelos moletons. Ainda havia um certo clima de ansiedade no ar e Gustavo não entendia o porquê. O fato de Ricardo ser retirado da sala não o ajudava, já que o amigo sempre fora mais esperto que ele e tinha excelente audição.
Ser levado à Maria da Glória era algo que a grande maioria dos alunos não gostava. A distinta senhora era a coordenadora de metade das turmas de Ensino Médio e, infelizmente para muitos, ela era uma espécie de psicóloga-aconselhadora-e-queria-ser-amiga-dos-alunos ao mesmo tempo. Além disso, Mª da Glória gostava muito de falar e dar conselhos em todos os pontos na vida de todos os alunos.
Ricardo encaixava-se no perfil da maioria dos alunos. Já fora mandado à coordenação várias vezes e todas eram seguidas de um terrível arrependimento de ter cometido alguns erros. Não que se arrependesse do que havia feito; não gostava de ir à coordenadora.
- Humm… será que tem alguém no pátio? - e desceu as escadas.
She fell in love with a man who was so fine,
He made her promises
She didn’t stop to think if he was serious
Until she had his baby…Sweet Sixteen *
- COMO É? A NATÁLIA TÁ GRÁVIDA???
Esse era o espanto da maioria dos alunos quando souberam da notícia. O burburinho da sala de Ricardo e Gustavo tinha uma razão; uma de suas colegas de classe estava grávida e, como de praxe, o garoto não quis assumir a paternidade.
Na verdade, o pai da criança não era exatamente um garoto: tinha 30 anos, havia seduzido Natália ao dizer que, com ele, ela se livraria da prisão que os pais a mantinham. O homem era colega de trabalho do pai de Natália, o que não melhorava a situação para a garota.
Gustavo e Ricardo ouviram a notícia no banheiro masculino, entre a aula de português e a de física (aula dava no laboratório). Ricardo espantou-se, como demonstrado acima. Gustavo, entretanto, limitou-se a fechar os olhos e a balançar a cabeça em sinal de reprovação.
- Eu sabia que ela era uma vagabunda! - dizia um dos meninos.
- Por que você tá dizendo isso, Mauro? - perguntou Ricardo, inocente.
- Porque blá blá blá…. - Mauro começou a dizer, mas Gustavo recusou-se a continuar ouvindo tantas besteiras e inverdades sobre a garota. Não a conhecia suficientemente bem, a cumprimentava quando chegava e só. Mas nunca tivera motivos para pensar mal dela. Saíra do banheiro puxando Ricardo pelo colarinho.
- Puta merda, a menina comete um erro e é tachada de um monte de coisas… - resmungava Gustavo no caminho ao laboratório de física.
Durante a explicação da professora, os alunos se comportavam bem. Afinal, se a mulher tinha o carinhoso apelido de Chuck (em alusão ao famoso boneco assassino), não seria divertido desafiá-la. Durante a execução das tarefas, a conversa fluía dentro dos limites. Mas, especialmente hoje, o assunto era um só:
- Nossa, como ela foi irresponsável!
- Ela estragou a vida dela. E da família!
- Será que ela vai abortar?
- Bem feito, quem manda ela dar pra todo mundo?
De repente, Natália levanta-se chorando e sai da sala correndo. Ouviru todos os comentários e não agüentava mais. A professora não entendeu o que aconteceu e perguntou a um aluno. Após a explicação, Chuck olhava para a porta de forma desolada.
- Ela nunca fez mal pra ninguém, o que esse pessoal está fazendo? - indignava-se Ricardo, aos sussurros em uma das mesas.
- Quem mandou ela transar sem camisinha? - respondia, em voz alta, um garoto intrometido e arrogante, chamado Carlos.
- Ah, cala a boca! E quem mandou você ser um idiota completo? - rebateu Ricardo, recebendo aplausos de parte da classe e da professora, que não suportava o jeito de Carlos.
I know your feeling lonely,
Who you’ re gonna turn to,
feels like the world closing in on you
Sweet Sixteen,
You need to cherish what you have,
You can forget about the past
Now you can start all over,
and cherish your life
A notícia da gravidez de uma aluna espalhou-se rapidamente por toda a escola. Até o intervalo, praticamente todo mundo sabia que havia uma grávida entre eles. Maria da Glória procurava desesperadamente a “menina dos boatos” pelos corredores da escola.
- Ah, uma garota do segundo ano! - diziam no pátio.
E, alguns repetiam o mesmo discurso ouvido na sala de Gustavo e Ricardo.
Várias garotas foram solidárias à Natália, embora a mesma não soubesse, por estar chorando no banheiro, junto de suas amigas. Muitas confrontavam garotos e garotas em seus comentários machistas e discutiam sobre aborto, gravidez na adolescência, gravidez em geral. Incrível como esse assunto desperta um interesse maior das mulheres.
- Ela é uma idiota! Ao invés de estudar, se enroscou com um qualquer aí e olha só no que deu! Grávida! De um cara que ela mal conhece! Uma va… - era Carlos discutindo com amigos o acontecido. Porém nunca terminou a frase, pois recebeu um soco de direita de Mônica, que acompanhava o discurso do garoto e há tempos se irritara com o comportamento dele.
Rafael, caindo aos risos junto de outros alunos, acompanhou Mônica até o banheiro feminino em que Natália encontrava-se. Mas, assim como alguns garotos, não ousara adentrar o recinto.
- Eu entendo o que você sente, Natália - Mônica começou a dizer, olhando a garota com pena - eu nasci quando minha mãe tinha 16 anos; engravidou de um cafajeste que nunca quis saber de mim. Enfrentou mó barra, minha avó queria que minha mãe abortasse. Mas ela não quis. Preferiu ter a criança. Por sorte, meu avô ajudou minha mãe a se sustentar até que ela fosse independente financeiramente… Até hoje a relação da minha avó com a minha mãe é bem delicada, um saco.
Partilhando do sentimento, uma das faxineiras que cuidavam daquele banheiro acariciava os cabelos de Natália. A moça lembrou-se dela mesma, com quase a mesma idade. Da filha que teve e que abandonou por pressão da família do pai da criança. Seu maior arrependimento. Algumas meninas já estava com os olhos marejados. O barulho estridente do sinal as trouxe de volta ao mundo real, mas poucas foram as que voltaram para a sala.
* Fragmentos da música “Sweet Sixteeen”, de Destiny’s Child.




Lendo esse texto me lembro de quanto estava no segundo ano, coincidentemente, e uma colega de sala engravidou.
Foi o mesmo burburinho, os mesmos comentários, as mesmas lágrimas. Porém, ela acabou decidindo-se por ter o bebê e enfrentar todo o mundo que se mostrasse contra sua decisão.
Na época fizemos até um chá de bebê em plena sala de aula, do qual participaram várias professoras nossas.
O mais engraçado é que quando esse tipo de coisa acontece com garotas de 15, 16 anos sempre gera uma comoção imensa, como se engravidar fosse o maior pecado que uma mulher pode cometer. Tudo bem que ter um filho nesta idade, em que muitas vezes não estamos preparadas nem para cuidar de nós mesmas, que dirá de um filho é um ato de irresponsabilidade. Mas daí a taxar alguém de vagabunda é um pouco demais.
Depois da época da escola algumas amigas minhas engravidaram. Umas se casaram, outras não. Mas nem por isso escaparam do pré-julgamento.
Lembro superficialmente disso na Gv…mas nem me preocupei em saber quem era e o porque, algo até que normal por aqui..xD
=**
O que é gv? Tenho gostado dos textos, fico curiosa mas meio confusa…
Essas são histórias meio ficciosas, meio realistas que aconteceram comigo e amigos no colégio onde estudávamos o Ensino Médio, a Escola Técnica Estadual Getúlio Vargas (ou ETE GV).
As Crônicas da GV é um projeto meu e de uns amigos e começamos no final de 2005. O Ivan também está publicando algumas histórias, mas as dele seguem outra vertente.
Escrevi 6 histórias em janeiro de 2006 e pretendo terminar mais algumas =) A idéia, na época, era fazer uma homenagem à escola que tanto amamos e onde nos conhecemos. Acho que no ano passado, ela fez 100 anos e íamos apresentar uma espécie de homenagem mesmo. Mas desistimos e ficou assim mesmo.
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Tem um link escondido no “Ivan” xD
Go reviver o projeto hehe
eu nunca parei de fazer os scripts mas n redigi depois do 121 ainda.
E se o Thiago for fazer tb pede pra numerar de 301 pra frente?