
Imagem retirada daqui.
- Você tem que provar este chocolate! Tem gosto de infância!
- Infância? – disse, tentada pelo doce e curiosa pela expressão.
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Alguns minutos depois (o tempo de pagar pelo chocolate e esperar minhas amigas terminarem suas compras na loja de doces) pude comprovar: aquele chocolate tinha gosto de infância realmente!
Mas o que é o “gosto de infância”? Confesso que não tenho uma explicação muito boa para essa sensação. Podemos tentar defini-la como uma mistura de inocência, despreocupação e calor. Ao morder aquele pequeno pedaço de chocolate, relembrei de alguns momentos de quando eu era criança e senti vontade de terminar de comê-lo assistindo a desenhos antigos da TV Cultura, mais especificamente do extinto Glub-Glub.
Agora virá uma pequena observação, leitor. Se preferir pular as próximas linhas, esteja à vontade.
Eu sei que hoje em dia há um programa de mesmo nome na mesma emissora, com o mesmo conceito e até os mesmos atores. mas não é o mesmo programa, já que aqueles desenhos e animações antigos e europeus que me divertiam tanto forma substituídos pelos desenhos politicamente corretos dos tempos pós-modernos e por dicas de ecologia.
Voltando ao chocolate, ele não é novo no mercado e eu ignorei a marca. Também não é dos mais caros ou badalados como Ofner ou Copenhagen. Não tem misturas exóticas que dão um sabor artificial; tem um gosto caseiro. Talvez por isso faça-nos recordar o passado, quando comíamos (ok, eu comia) menos conservantes e coisas semi-preparadas e podíamos (embora a pouca idade impedisse muitas vezes) degustar a comida, sentir suas texturas, ingredientes, cheiro e o real sabor.
Como era uma barra generosa, deixei para comer o restante no caminho para casa. Eu comia e desligava do mundo, não importasse o que acontecesse, se fossem terremotos na China ou supostos aviões caindo em fábricas de colchões ou mesmo se o Felipe Massa tivesse ganhado o último GP de Fórmula 1. Lá estava eu, sentadinha no metrô, sem tocar os pés no chão, comendo alegremente aquela barrinha ouvindo uma música feliz no MP4. A pequena televisão do vagão divertia-me tal qual os desenhos infantis. Faltava-me apenas um laço nos cabelos e um vestido de verão para eu voltar a ser criança.
Cada mastigada era uma lembrança há muito esquecida. Apesar da minha infância ter sido mais do que assistir televisão, era dessas recordações mais calmas que eu lembrava. Dos dias de calor em que eu voltava correndo da escola e tomava um enorme copo d’água olhando pela janela as nuvens que dançavam em sincronia com as folhas da copa da grande árvore que ficava no prédio à frente.
Lembrava também das tardes em que minhas amigas e eu brincávamos de “casinha” no pátio do prédio. E das muitas vezes em que meus irmãos e eu pulávamos na cama da minha avó (e o estrado quebrava e nós “ajudávamos” meu avô a consertar).
Quando cheguei em casa, dei o último pedaço ao meu irmão, repetindo a frase que ouvi da minha amiga. Ele me olhou com estranheza, mas na primeira mordida, compreendeu o “gostinho de infância”.
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Epílogo
Alguns dias depois, eu ansiava por alguma comida para curar meu enjôo de ter tomado remédios de barriga vazia. Encontrei o chocolate em uma barraca próxima à faculdade, mas seu preço elevado foi mais uma pontada no estômago. Estava enjoada, atrasada e ouvi uma discussão acaloradamente agressiva na aula e não pude saborear o gosto que tanto havia me encantado. Parece que é necessário o estado de espírito correto para apreciar essa iguaria.
P.S.: O chocolate do texto é o “Napolitano”, da Arcor. Eu havia pagado R$2,40 por 4 pedaços na primeira vez em que comi. No dia do enjôo, paguei R$1,00 por um pedaço. ¬¬

Esse texto me fez lembrar de uma conversa que tivemos certa vez, sobre comidas com gosto de infância (margarinas, sorvetes e chocolates..rs)
Sinto saudades da época em que a comida tinha mais sabor, glub-glub era menos “politicamente correto” e “fumava” vários cigarrinhos de chocolate..
Nunca comi o “napolitano”, mas já comprei várias vezes “moranguete” e moedinhas de chocolate da Pan. Tem o mesmo efeito epifânico?rs
Gosto de infância pra quem tem mta capacidade de sinestesia vira vício hehe. Aliás, não só de infância, mas também gosto de férias, de inverno, etc.
Saudades da minha infancia…a vida era mto menos complicada, eu podia comer tudo q quisesse sem neura d engordar ou naum…
Tem mtas comidas q remetem à minha infância: sagu, Lolo (lembra? hj chama Milkybar), cigarrinhos d chocolate, quindim (q eu comia dps do ballet), Surpresa (nem existe mais esse chocolate), Dip’n lik, Chup-chups, melzinho, Babaloo, Danoninho… agora q ganhei uma priminha (q ja está com quase 2 anos), compartilhamos o gosto por Danoninho, regredi um pco…hahaha
Bjoos Bi! Adoro seus textos!
Bibi, para mim, você já (ou ainda?) é uma criancinha fofa XD
Veja só isto, comunica com seu post:
http://transcendentes.blogspot.com/2008/05/desaparecido-milkybar.html
E eu tinha muuuuuuuitas sensações de ressurreição da infância. Demais. Tanto que realmente era meio viciado. E hoje, o fedor do mundo adulto atrapalha um pouco a recordar o que ficou… ainda bem que ficou bastante, pelo menos.
Abração! o/