Dois homens de 50 ou 60 anos conversam em um beco escuro. Algumas grades e janelas os separam do claro mundo exterior. Há vários papéis jogados sobre as mesas de madeira envelhecida e carcomida, alguns em branco. Cinzas de cigarro espalhadas e copos de café.
O mais velho é um senhor de costas curvadas e ansioso por um longo trago. Pensa silenciosamente na vida que passou e no restante que irá acontecer. Está ficando velho, está ficando sem futuro, está ficando sem vida. Olha para o copo de café. Ruim. Olha para o amigo. O amigo, mais jovem e de aparência mais elegante, toma um pouco do café ruim. Finge que é champanha. Brindam juntos a vida e o que resta.
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A imagem não corresponde à cena.
Essa foi uma cena que acompanhou meus sonhos em algumas madrugadas. É o último curta-metragem do filme “Sobre café e cigarros” (Coffee and Cigarettes), do diretor Jim Jarmusch. Aparentemente, cenas banais se desenrolam, sempre embaladas por cigarros e longos cafés. Nem eu sei direito o porquê de eu ter me envolvido tanto com essa cena em especial. Não assisti ao filme inteiro, apenas aos dois últimos curtas, e esta cena me marcou.
Cafés e cigarros são dois clichês cults. Em uma das aulas, uma pseudo-cult sugeriu que todos levassem cafés e cigarros às aulas de jornalismo cultural. Não lembro quem era a garota, só lembro da má impressão dessa pessoa tão reduzida. Ao mesmo tempo, café e cigarros costumam combinar tão bem quanto arroz e feijão. Embora uma das imagens mais arrogantes que tenho em mente seja a de um francês tomando café e fumando em um café nas calçadas de Paris; enquanto arroz e feijão me lembra pedreiros sujos comendo desesperadamente antes de voltar a trabalhar nas construções gigantescas de São Paulo.
E essa comparação me lembra um post da Patrícia Campos Mello, onde ela compara o Barrack Obama e a Hillary Clinton. Não tem a ver com café ou cigarros, mas Starbucks e Wendy’s. Vale a pena a conferida.
E, falando dos estado-unidenses, os cafés não são quaisquer cafés; são Starbucks. Altos copos, com seu nomezinho escrito e o logo verde. Símbolos de alto poder de compra. Símbolos mundiais de café. Café ruim, mas café. Os dois senhores decidem fazer do café ruim champanha e querem comemorar a vida. Um pouco como nós, jovens, deveríamos aproveitar a vida; retirar das coisas ruins uma boa fantasia. E continuar acreditando e vivendo, não morrer antes do previsto.
Ainda na linha dos clichês, não sei se o cigarro é Marlboro; para a nossa sorte (ou azar), marcas de cigarro não são tão descaradamente divulgadas a não ser na Fórmula 1. O mais jovem acende um cigarro atrás do outro, a fumaça encanta o espectador, que assiste a um show de formas difusas e chega a se perder na conversa. Mas apenas por uns segundos; a imagem logo muda e o velhinho mais corcunda e suas reflexões sobre o mundo concentram nossa atenção.
E o filme termina assim. Os dois, como começaram, bebericando o café, refletindo sobre a vida em meio à fumaça do cigarro. Nenhuma conclusão é feita, nenhum assunto é fechado. Como a maior parte de nossas vidas.

Engraçado que quando eu pensei que era uma pessoa-exceto por não xingar jogando bola, exercitar o papo para sair com meninas ou calcular a data do lançamento da minha carteira de motorista no dia do meu aniversário de 18 anos, descubro que mesmo para o estereótipo do virgem tardio, nerd e molóide eu sou exceção, pois não gosto de café e detesto cigarros.
Mas realmente, é um símbolo que ficou.
Por isso que a gente da facul pensa, num dia em que estivermos cheios da grana, em abrir um café para tomar-se café e haver atividades literárias, musicais e cênicas! Sonho, hein?
Starbucks tem no Brasil já faz um tempo. O café é bem meia boca, é incrivelmente aguado. Não sei pq americano gosta de beber daquele jeito, parece chá preto sujo. O resto é bom.
E cigarro como símbolo de status já é muito muito menos presente do que há uma ou duas gerações atrás. Não achava que alguém fosse sugerir levar isso pra uma aula só para dar o ar de cult.
Ai, ai… eu gosto de café aguado, não acho ruim, acho mais fácil de beber.. só que não fumos cigarro…
Eu também não gosto do café da Starbucks… só tomo frapuccinos lá xD~
Mas acho que é por ser aguado que os norte-americanos tomam tanto. Realmente, é mais fácil de beber. Tomar um dos copos maiores é fácil.
Mas cigarro é mais foda mesmo… eu passo mal, não gosto mesmo.
Não gosto desta visão elitista de uma conversa. Assim como também não gosto da associação “arroz e feijão=peão”. Pejorativo.. Mas, enfim… ela existe e ponto.
Tenho apenas uma pergunta: será que uma conversa inteligente não ser movida a fandangos e coca-cola? menos elitista e mais “universitário”, não acha?rs
Bom, acho que por ter fumantes aqui em casa eu sempre meio que tive nojo de cigarro, mas uma coisa que me deixa indignado é a sociedade, de uma hora pra outra, condenar o tabagismo (acho que nossa geração acompanhou essa transformação). De repente fumar é errado, faz muito mal à saúde e “fumantes são doentes”, como se o cigarro não fosse como o álcool ou mesmo as comidas gordurosas.
Não que eu seja contra o consumo de tudo isso, muito pelo contrário. Sou a favor da liberdade de escolha de cada um fazer o que quiser da própria vida (claro, contanto que esteja disposto a pagar pelas conseqüências). Acho que todas essas coisas deviam ser simplesmente apresentadas como são, é uma droga, é viciante, se o jovem experimentar, corre o risco de se viciar, mas ao mesmo tempo seu consumo proporciona prazer. Agora, condenar uma parcela desses consumidores de drogas (cigarro) enquanto outras são aceitas (bebida por exemplo), é profundamente injusto.
é uma idéia, combinar cafés a conversas, mas cigarros? talvez um daqueles perfumados que se assemelham aos aromas dos cachimbos, fora isso. a fumaça é sex, mas a manufatura esdrúxula da mistura é enjoativa. enfim, conversar sobre a vida bebendo café ou um bom chá numa paisagem mesmo clichê de cinema cult é interessante, e deveria ser aplaudida num momento em que as salas de chats estão cheias de anonimatos e não se falam mais de aproximações de amigos numa tarde ensolarada onde as varandas deveriam ser as preferidas, quase num pôr alaranjado do sol num dia de visita… Ah! que aconchegante e charmoso…