Dois homens de 50 ou 60 anos conversam em um beco escuro. Algumas grades e janelas os separam do claro mundo exterior. Há vários papéis jogados sobre as mesas de madeira envelhecida e carcomida, alguns em branco. Cinzas de cigarro espalhadas e copos de café.
O mais velho é um senhor de costas curvadas e ansioso por um longo trago. Pensa silenciosamente na vida que passou e no restante que irá acontecer. Está ficando velho, está ficando sem futuro, está ficando sem vida. Olha para o copo de café. Ruim. Olha para o amigo. O amigo, mais jovem e de aparência mais elegante, toma um pouco do café ruim. Finge que é champanha. Brindam juntos a vida e o que resta.
***

A imagem não corresponde à cena.
Essa foi uma cena que acompanhou meus sonhos em algumas madrugadas. É o último curta-metragem do filme “Sobre café e cigarros” (Coffee and Cigarettes), do diretor Jim Jarmusch. Aparentemente, cenas banais se desenrolam, sempre embaladas por cigarros e longos cafés. Nem eu sei direito o porquê de eu ter me envolvido tanto com essa cena em especial. Não assisti ao filme inteiro, apenas aos dois últimos curtas, e esta cena me marcou.
Cafés e cigarros são dois clichês cults. Em uma das aulas, uma pseudo-cult sugeriu que todos levassem cafés e cigarros às aulas de jornalismo cultural. Não lembro quem era a garota, só lembro da má impressão dessa pessoa tão reduzida. Ao mesmo tempo, café e cigarros costumam combinar tão bem quanto arroz e feijão. Embora uma das imagens mais arrogantes que tenho em mente seja a de um francês tomando café e fumando em um café nas calçadas de Paris; enquanto arroz e feijão me lembra pedreiros sujos comendo desesperadamente antes de voltar a trabalhar nas construções gigantescas de São Paulo.
E essa comparação me lembra um post da Patrícia Campos Mello, onde ela compara o Barrack Obama e a Hillary Clinton. Não tem a ver com café ou cigarros, mas Starbucks e Wendy’s. Vale a pena a conferida.
E, falando dos estado-unidenses, os cafés não são quaisquer cafés; são Starbucks. Altos copos, com seu nomezinho escrito e o logo verde. Símbolos de alto poder de compra. Símbolos mundiais de café. Café ruim, mas café. Os dois senhores decidem fazer do café ruim champanha e querem comemorar a vida. Um pouco como nós, jovens, deveríamos aproveitar a vida; retirar das coisas ruins uma boa fantasia. E continuar acreditando e vivendo, não morrer antes do previsto.
Ainda na linha dos clichês, não sei se o cigarro é Marlboro; para a nossa sorte (ou azar), marcas de cigarro não são tão descaradamente divulgadas a não ser na Fórmula 1. O mais jovem acende um cigarro atrás do outro, a fumaça encanta o espectador, que assiste a um show de formas difusas e chega a se perder na conversa. Mas apenas por uns segundos; a imagem logo muda e o velhinho mais corcunda e suas reflexões sobre o mundo concentram nossa atenção.
E o filme termina assim. Os dois, como começaram, bebericando o café, refletindo sobre a vida em meio à fumaça do cigarro. Nenhuma conclusão é feita, nenhum assunto é fechado. Como a maior parte de nossas vidas.

Engraçado que quando eu pensei que era uma pessoa-exceto por não xingar jogando bola, exercitar o papo para sair com meninas ou calcular a data do lançamento da minha carteira de motorista no dia do meu aniversário de 18 anos, descubro que mesmo para o estereótipo do virgem tardio, nerd e molóide eu sou exceção, pois não gosto de café e detesto cigarros.
Mas realmente, é um símbolo que ficou.
Por isso que a gente da facul pensa, num dia em que estivermos cheios da grana, em abrir um café para tomar-se café e haver atividades literárias, musicais e cênicas! Sonho, hein?
Starbucks tem no Brasil já faz um tempo. O café é bem meia boca, é incrivelmente aguado. Não sei pq americano gosta de beber daquele jeito, parece chá preto sujo. O resto é bom.
E cigarro como símbolo de status já é muito muito menos presente do que há uma ou duas gerações atrás. Não achava que alguém fosse sugerir levar isso pra uma aula só para dar o ar de cult.
Ai, ai… eu gosto de café aguado, não acho ruim, acho mais fácil de beber.. só que não fumos cigarro…
Eu também não gosto do café da Starbucks… só tomo frapuccinos lá xD~
Mas acho que é por ser aguado que os norte-americanos tomam tanto. Realmente, é mais fácil de beber. Tomar um dos copos maiores é fácil.
Mas cigarro é mais foda mesmo… eu passo mal, não gosto mesmo.
Não gosto desta visão elitista de uma conversa. Assim como também não gosto da associação “arroz e feijão=peão”. Pejorativo.. Mas, enfim… ela existe e ponto.
Tenho apenas uma pergunta: será que uma conversa inteligente não ser movida a fandangos e coca-cola? menos elitista e mais “universitário”, não acha?rs
Bom, acho que por ter fumantes aqui em casa eu sempre meio que tive nojo de cigarro, mas uma coisa que me deixa indignado é a sociedade, de uma hora pra outra, condenar o tabagismo (acho que nossa geração acompanhou essa transformação). De repente fumar é errado, faz muito mal à saúde e “fumantes são doentes”, como se o cigarro não fosse como o álcool ou mesmo as comidas gordurosas.
Não que eu seja contra o consumo de tudo isso, muito pelo contrário. Sou a favor da liberdade de escolha de cada um fazer o que quiser da própria vida (claro, contanto que esteja disposto a pagar pelas conseqüências). Acho que todas essas coisas deviam ser simplesmente apresentadas como são, é uma droga, é viciante, se o jovem experimentar, corre o risco de se viciar, mas ao mesmo tempo seu consumo proporciona prazer. Agora, condenar uma parcela desses consumidores de drogas (cigarro) enquanto outras são aceitas (bebida por exemplo), é profundamente injusto.