N°203: A Bela e a Fera
À data de 12-13-14/04/2002
Escrito em: janeiro/2006
Hora do intervalo e um dia atípico para Rafael. Sua amiga, Mônica, ficara doente e não iria à GV naquele dia. Talvez, nem no dia seguinte. A garota estava com pneumonia.
Apesar de não ser do tipo dependente, Rafael sentia falta da amiga e seus comentários sobre cada aula, assim como do jeito determinado que o cativou no primeiro dia de aula.
Agora, sentado em um banco no pátio, observando alguns meninos jogarem ping-pong, reparou em como sentia falta de outra amizade na escola.
- Bom dia, menininho de aparência triste!!!! - disse afetuosamente uma garota que sentara ao lado de Rafael naquele instante, tirando-o de seu mundinho de pensamentos pseudo-depressivos.
Rafael nunca reparara naquela garota. Uma menina loira, cabelos incrivelmente compridos, de olhos intensamente azuis e inocentes, de alegria contagiante, de 1,58m de altura e vestido florido.
- Oi, qual o seu nome? - perguntava a garota, com um doce sorriso nos lábios.
- Er…… Rafael. E o seu? - perguntou atônito, o menino.
- Cíntia. Cíntia Scliar, prazer. Qual sala você está? E porque essa carinha triste? Vamos, ânimo! O dia está lindo, o céu azul, as flores com cores lindas, o pessoal se divertindo, mas a sua cara tá trash! Você gosta de batatas? Acho que já vi você comendo um pacote de Ruffles no recreio! Vamos lá, eu te compro um se você melhorar a sua cara!
- Ahn… tá bem… - mal respondeu o garoto e já sendo arrastado por Cíntia até a cantina.
Durante todo o intervalo, a menina ia puxando Rafael pelos corredores, entusiasmada. Nem reparou que o garoto mal respondia o que lhe era perguntado, apenas se deixava levar pela garota estranha que conhecera há pouco.
- Ah, que pena, acabou o recreio! Nos vemos à tarde, meu novo amigo?
- An… claro… - não conseguia recusar um pedido feito com um ar tão inocente como aquele - Até mais, moça.
Sentado na sala de aula, pensando sobre o que acontecera, notou que não sabia nada da garota. A não ser que ela era uma menina alegre demais pra ele. Nem reparou que ela não desceu junto com ele às salas do primeiro ano; nem subira para as salas dos segundos ou terceiros.
Mal o sinal tocou, Rafael já se colocava para fora da sala quando ouviu um chamado:
- Oi, mocinho ainda triste! Boas aulas? - perguntava Cíntia, que esperava-o sair.
- Você não teve a última aula? - perguntou um Rafael meio mau humorado.
- Ah, tive, claro! Mas, isso não importa, aonde iremos hoje?
- Hein????
- Ué, eu disse que nos veríamos à tarde. Então, aonde vamos?
- Humm… eu já tenho compromissos - mentiu.
- Ah é? Huumm… então, aonde vamos? Eu vou com você! - Cíntia era persistente ou muito ingênua.
- Na Galeria do Rock, você não gostaria de ir lá. É feio, sujo e fedido. Além de ter uns caras meio mal encarados passeando por lá.
- E por quê você vai pra lá se é tão ruim assim? - perguntou a menina, piscando inocentemente os grandes olhos azuis.
Resultado: Rafael levou Cíntia até a Galeria do Rock, local muito freqüentado por amantes do rock e seus gêneros. Localizava-se no centro da cidade, perto do Theatro Municipal, um dos cartões postais de São Paulo. Cíntia se destacava na Galeria, sempre cheia de jovens de cabelo escuro e roupas igualmente pretas.
- Ah, que lindo!!! - Cíntia nunca estivera na Galeria e se impressionava com os jovens transeuntes e com a arquitetura do centro.
- É normal. Nada demais.
- Tá louco? É maravilhoso! Olha quantas luzes!! - seus olhos brilhavam ao olhar as luminárias da galeria - Cadê seus amigos?
- Devem ter se atrasado.
- Meu, que lindo esse lugar! Olha aquele cara, que exótico! Com todos aqueles piercings e tatuagens! E aquela menina, de saia xadrez, que linda!! E aquele cabelo rosa! E olha aquele vendedor de cachorro -quente! Até os mendigos daqui têm um ar diferente! E que música é essa tocando? Angra? Nunca ouvi, mas o cara canta engraçado! Ahhh, olha aquele colar! Vou comprar!
Ficaram a vagar por umas duas horas na galeria, até que a menina se cansara de lá e quis conhecer a Praça Ramos de Azevedo, que fica ali perto.
- Por que você quer ir lá?
- Porque eu vi na televisão. - Sorria. Sabia que Rafael não resistia à um sorriso doce e feliz.
A Praça Ramos de Azevedo era um local agradabilíssimo em dias de Sol. Há traços de arquitetura clássica / gótica e muito verde em seus arredores. Ainda tinha uma bela vista para o Theatro Municipal. Vários skatistas praticavam suas manobras por lá e alguns gatinhos brincavam na grama.
- Ahhhh…. bichinhos!!! - empolgava-se Cíntia ao ver os gatinhos bebês.
Rafael acostumara-se ao entusiasmo de Cíntia. Estava aproveitando a companhia da garota.
- Já reparou como essa cidade é paradoxal, Rafa? - perguntava a garota, ainda brincando com os animaizinhos - Olha só, deste lado, temos o imponente teatro, as pessoas bem vestidas indo trabalhar, aquele shopping lindo; e, daquele outro ali temos uns moleques mal vestidos, um prédio com aparência abandonada e caindo aos pedaços. Até as pessoas que passam daquele lado parecem mais tristes que as deste lado aqui.
Rafael nunca parara para observar a cidade e seus inúmeros habitantes. Suas reflexões sobre as considerações de Cíntia foram interrompidas por um grito feminino.
- O que foi, Cíntia??
- SORVETE! EU QUERO, VAMOS??????
Rafael não aguentara. Começara a rir com gosto. O que deixou Cíntia meio preocupada.
- Não se preocupe - disse Rafael ainda rindo muito - Estou feliz, apenas isso.
- É a primeira vez que te vejo tão feliz. Ah, tá tarde, preciso voltar pra casa! Te vejo amanhã! - disse a garota, já correndo em direção ao metrô e com o sorvete quase caindo.
Na manhã seguinte, Rafael chega mais cedo na GV. Por alguma razão desconhecida por ele, acordou meia hora mais cedo e resolveu ir logo à escola. Queria saber de qual sala era a garota incrível que conheceu no dia anterior, mas não queria admitir. Chegou um pouco antes das sete horas, o que era quase um milagre, visto que chegava sempre no segundo sinal.
Mal entrara na GV e uma cabeleira loira cumprimentava-o.
- Nossa, chegou cedo hoje! Bom dia, Rafa!!
- Er, bom dia. Você é sempre alegre desse jeito?
- Só em dias de muito Sol! Como hoje! E ontem!
- De qual sala você é?
- Ann, eu…? Descobre, ué. Aonde vamos hoje?
- Ah? Vamos sair hoje?
- Ué, por que não sair? Ih, tá quase na hora da aula, vai logo senão você se atrasa! Até mais! - Cíntia dizia e empurrava Rafael às escadas que levavam aos corredores do primeiro ano.
- Hey, assim eu caio lá embaixo!
As aulas transcorreram como sempre, algumas monótonas, outras alegres. Uns professores Rafael gostava e outros não. Mas sua amiga Mônica ainda não se recuperou da pneumonia e ficaria mais um dia sem ir à escola. Algumas colegas de sala de Rafael notaram a menina feliz na hora da entrada e atormentavam o garoto com perguntas relacionadas aos dois. O que o deixou muito irritado.
No intervalo, Rafael procurou Cíntia, mas a menina sumira da GV. A encontrou no final do intervalo, numa das barraquinhas de lanche que ficavam do lado de fora da escola.
- Olha isso, que gostoso Rafa! Cachorro quente de chocolate! - dizia com os olhos brilhando de felicidade.
Rafael, que estava meio irritado com o sumiço de Cíntia e com os comentários das meninas de sua sala, não pôde deixar de sorrir ao ver a alegria da menina ao comer um simples cachorro quente doce.
Encontraram-se (ou melhor, Cíntia o encontrou) na hora da saída e foram almoçar no Mc Donald´s perto da GV.
- Sabe que dia é hoje? - perguntou Cíntia ao passarem em frente à uma faculdade cheia de jovens saindo para almoçar.
- Dia 13 de abril?
- É, né, bobo… mas hoje também é dia dos jovens!
- Quem disse?
- O calendário, ué.
- E qual a diferença desse dia na minha vida?
- Mas que menino mais cético! Vamos comemorar a juventude que nos resta!
- Pra quê?
- Precisa de motivos pra reunir os amigos e fazer festa?
- Não, não precisa.
- Então, vamos comemorar o dia dos jovens! No Mc Donald´s!
- Por que lá?
- Você já viu um monte de velhinhos comerem no Mc Donald´s?
- HAHAHAHA, tá, você me convenceu!
Depois de comerem, caminharam até o Parque da Independência, mais conhecido como Museu do Ipiranga, perto da GV. Passearam pelo bosque, situado na parte de trás do Museu. Brincaram no parquinho, em brinquedos de crianças que eles mal cabiam. E deram muitas risadas.
Ao final do dia, sentaram-se nos canteiros perto das fontes, que estavam ligadas neste dia.
- Já viu coisa mais linda? - perguntou Cíntia.
- Nunca vim aqui. Na verdade, nunca tinha visto o mundo tão feliz desde que você apareceu na minha vida.
- É, foi pra isso que eu vim. Pra te mostrar um novo sentido! - Cíntia segurava a mão de Rafael - Mas, creio que não nos veremos mais.
- Por quê? Eu gosto de você. - disse Rafael, corando.
- A minha missão aqui já foi cumprida. Você já consegue ver o mundo sob nova óptica. - Cíntia retrucou docemente, com um belo sorriso.
- O que é você, um anjo?
- Humm… isso eu não posso te dizer. Mas podemos dizer que posso sim ser um anjo. Ou um demônio.
- Eu vou sentir a sua falta.
- Ah, não vai não. - E, ao dizer isso, Cíntia empurrou Rafael dentro da fonte.
A garota saiu correndo, sem chances de Rafael alcançá-la. A ele, só restou ficar molhado e as lembranças. Um colorido arco-íris formava-se perto da uma das fontes.
No dia seguinte, Rafael procurou Cíntia pela escola inteira, mas não a encontrou. Perguntou por ela às inspetoras, mas nenhuma lembrava do rosto de Cíntia. Sem Mônica (ainda de cama) e Cíntia, o dia de Rafael foi um marasmo. Mas agora ele tinha a certeza de que Cíntia era um anjo.







