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[.crônicas da GV.]

N°203: A Bela e a Fera
À data de 12-13-14/04/2002
Escrito em: janeiro/2006

Endless friendship, by *Better-to-burn

Endless friendship, by *Better-to-burn

Hora do intervalo e um dia atípico para Rafael. Sua amiga, Mônica, ficara doente e não iria à GV naquele dia. Talvez, nem no dia seguinte. A garota estava com pneumonia.

Apesar de não ser do tipo dependente, Rafael sentia falta da amiga e seus comentários sobre cada aula, assim como do jeito determinado que o cativou no primeiro dia de aula.

Agora, sentado em um banco no pátio, observando alguns meninos jogarem ping-pong, reparou em como sentia falta de outra amizade na escola.

- Bom dia, menininho de aparência triste!!!! - disse afetuosamente uma garota que sentara ao lado de Rafael naquele instante, tirando-o de seu mundinho de pensamentos pseudo-depressivos.

Rafael nunca reparara naquela garota. Uma menina loira, cabelos incrivelmente compridos, de olhos intensamente azuis e inocentes, de alegria contagiante, de 1,58m de altura e vestido florido.

- Oi, qual o seu nome? - perguntava a garota, com um doce sorriso nos lábios.

- Er…… Rafael. E o seu? - perguntou atônito, o menino.

- Cíntia. Cíntia Scliar, prazer. Qual sala você está? E porque essa carinha triste? Vamos, ânimo! O dia está lindo, o céu azul, as flores com cores lindas, o pessoal se divertindo, mas a sua cara tá trash! Você gosta de batatas? Acho que já vi você comendo um pacote de Ruffles no recreio! Vamos lá, eu te compro um se você melhorar a sua cara!

- Ahn… tá bem… - mal respondeu o garoto e já sendo arrastado por Cíntia até a cantina.

Durante todo o intervalo, a menina ia puxando Rafael pelos corredores, entusiasmada. Nem reparou que o garoto mal respondia o que lhe era perguntado, apenas se deixava levar pela garota estranha que conhecera há pouco.

- Ah, que pena, acabou o recreio! Nos vemos à tarde, meu novo amigo?

- An… claro… - não conseguia recusar um pedido feito com um ar tão inocente como aquele - Até mais, moça.

Sentado na sala de aula, pensando sobre o que acontecera, notou que não sabia nada da garota. A não ser que ela era uma menina alegre demais pra ele. Nem reparou que ela não desceu junto com ele às salas do primeiro ano; nem subira para as salas dos segundos ou terceiros.

Mal o sinal tocou, Rafael já se colocava para fora da sala quando ouviu um chamado:

- Oi, mocinho ainda triste! Boas aulas? - perguntava Cíntia, que esperava-o sair.

- Você não teve a última aula? - perguntou um Rafael meio mau humorado.

- Ah, tive, claro! Mas, isso não importa, aonde iremos hoje?

- Hein????

- Ué, eu disse que nos veríamos à tarde. Então, aonde vamos?

- Humm… eu já tenho compromissos - mentiu.

- Ah é? Huumm… então, aonde vamos? Eu vou com você! - Cíntia era persistente ou muito ingênua.

- Na Galeria do Rock, você não gostaria de ir lá. É feio, sujo e fedido. Além de ter uns caras meio mal encarados passeando por lá.

- E por quê você vai pra lá se é tão ruim assim? - perguntou a menina, piscando inocentemente os grandes olhos azuis.

Resultado: Rafael levou Cíntia até a Galeria do Rock, local muito freqüentado por amantes do rock e seus gêneros. Localizava-se no centro da cidade, perto do Theatro Municipal, um dos cartões postais de São Paulo. Cíntia se destacava na Galeria, sempre cheia de jovens de cabelo escuro e roupas igualmente pretas.

- Ah, que lindo!!! - Cíntia nunca estivera na Galeria e se impressionava com os jovens transeuntes e com a arquitetura do centro.

- É normal. Nada demais.

- Tá louco? É maravilhoso! Olha quantas luzes!! - seus olhos brilhavam ao olhar as luminárias da galeria - Cadê seus amigos?

- Devem ter se atrasado.

Galeria do Rock

Galeria do Rock

- Meu, que lindo esse lugar! Olha aquele cara, que exótico! Com todos aqueles piercings e tatuagens! E aquela menina, de saia xadrez, que linda!! E aquele cabelo rosa! E olha aquele vendedor de cachorro -quente! Até os mendigos daqui têm um ar diferente! E que música é essa tocando? Angra? Nunca ouvi, mas o cara canta engraçado! Ahhh, olha aquele colar! Vou comprar!

Ficaram a vagar por umas duas horas na galeria, até que a menina se cansara de lá e quis conhecer a Praça Ramos de Azevedo, que fica ali perto.

- Por que você quer ir lá?

- Porque eu vi na televisão. - Sorria. Sabia que Rafael não resistia à um sorriso doce e feliz.

A Praça Ramos de Azevedo era um local agradabilíssimo em dias de Sol. Há traços de arquitetura clássica / gótica e muito verde em seus arredores. Ainda tinha uma bela vista para o Theatro Municipal. Vários skatistas praticavam suas manobras por lá e alguns gatinhos brincavam na grama.

- Ahhhh…. bichinhos!!! - empolgava-se Cíntia ao ver os gatinhos bebês.

Rafael acostumara-se ao entusiasmo de Cíntia. Estava aproveitando a companhia da garota.

- Já reparou como essa cidade é paradoxal, Rafa? - perguntava a garota, ainda brincando com os animaizinhos - Olha só, deste lado, temos o imponente teatro, as pessoas bem vestidas indo trabalhar, aquele shopping lindo; e, daquele outro ali temos uns moleques mal vestidos, um prédio com aparência abandonada e caindo aos pedaços. Até as pessoas que passam daquele lado parecem mais tristes que as deste lado aqui.

Rafael nunca parara para observar a cidade e seus inúmeros habitantes. Suas reflexões sobre as considerações de Cíntia foram interrompidas por um grito feminino.

- O que foi, Cíntia??

- SORVETE! EU QUERO, VAMOS??????

Rafael não aguentara. Começara a rir com gosto. O que deixou Cíntia meio preocupada.

- Não se preocupe - disse Rafael ainda rindo muito - Estou feliz, apenas isso.

- É a primeira vez que te vejo tão feliz. Ah, tá tarde, preciso voltar pra casa! Te vejo amanhã! - disse a garota, já correndo em direção ao metrô e com o sorvete quase caindo.

Na manhã seguinte, Rafael chega mais cedo na GV. Por alguma razão desconhecida por ele, acordou meia hora mais cedo e resolveu ir logo à escola. Queria saber de qual sala era a garota incrível que conheceu no dia anterior, mas não queria admitir. Chegou um pouco antes das sete horas, o que era quase um milagre, visto que chegava sempre no segundo sinal.

Mal entrara na GV e uma cabeleira loira cumprimentava-o.

- Nossa, chegou cedo hoje! Bom dia, Rafa!!

- Er, bom dia. Você é sempre alegre desse jeito?

- Só em dias de muito Sol! Como hoje! E ontem!

- De qual sala você é?

- Ann, eu…? Descobre, ué. Aonde vamos hoje?

- Ah? Vamos sair hoje?

- Ué, por que não sair? Ih, tá quase na hora da aula, vai logo senão você se atrasa! Até mais! - Cíntia dizia e empurrava Rafael às escadas que levavam aos corredores do primeiro ano.

- Hey, assim eu caio lá embaixo!

As aulas transcorreram como sempre, algumas monótonas, outras alegres. Uns professores Rafael gostava e outros não. Mas sua amiga Mônica ainda não se recuperou da pneumonia e ficaria mais um dia sem ir à escola. Algumas colegas de sala de Rafael notaram a menina feliz na hora da entrada e atormentavam o garoto com perguntas relacionadas aos dois. O que o deixou muito irritado.

No intervalo, Rafael procurou Cíntia, mas a menina sumira da GV. A encontrou no final do intervalo, numa das barraquinhas de lanche que ficavam do lado de fora da escola.

- Olha isso, que gostoso Rafa! Cachorro quente de chocolate! - dizia com os olhos brilhando de felicidade.

Rafael, que estava meio irritado com o sumiço de Cíntia e com os comentários das meninas de sua sala, não pôde deixar de sorrir ao ver a alegria da menina ao comer um simples cachorro quente doce.

Encontraram-se (ou melhor, Cíntia o encontrou) na hora da saída e foram almoçar no Mc Donald´s perto da GV.

- Sabe que dia é hoje? - perguntou Cíntia ao passarem em frente à uma faculdade cheia de jovens saindo para almoçar.

- Dia 13 de abril?

- É, né, bobo… mas hoje também é dia dos jovens!

- Quem disse?

- O calendário, ué.

- E qual a diferença desse dia na minha vida?

- Mas que menino mais cético! Vamos comemorar a juventude que nos resta!

- Pra quê?

- Precisa de motivos pra reunir os amigos e fazer festa?

- Não, não precisa.

- Então, vamos comemorar o dia dos jovens! No Mc Donald´s!

- Por que lá?

- Você já viu um monte de velhinhos comerem no Mc Donald´s?

- HAHAHAHA, tá, você me convenceu!

Depois de comerem, caminharam até o Parque da Independência, mais conhecido como Museu do Ipiranga, perto da GV. Passearam pelo bosque, situado na parte de trás do Museu. Brincaram no parquinho, em brinquedos de crianças que eles mal cabiam. E deram muitas risadas.

Ao final do dia, sentaram-se nos canteiros perto das fontes, que estavam ligadas neste dia.

- Já viu coisa mais linda? - perguntou Cíntia.

- Nunca vim aqui. Na verdade, nunca tinha visto o mundo tão feliz desde que você apareceu na minha vida.

- É, foi pra isso que eu vim. Pra te mostrar um novo sentido! - Cíntia segurava a mão de Rafael - Mas, creio que não nos veremos mais.

- Por quê? Eu gosto de você. - disse Rafael, corando.

- A minha missão aqui já foi cumprida. Você já consegue ver o mundo sob nova óptica. - Cíntia retrucou docemente, com um belo sorriso.

- O que é você, um anjo?

- Humm… isso eu não posso te dizer. Mas podemos dizer que posso sim ser um anjo. Ou um demônio.

- Eu vou sentir a sua falta.

- Ah, não vai não. - E, ao dizer isso, Cíntia empurrou Rafael dentro da fonte.

A garota saiu correndo, sem chances de Rafael alcançá-la. A ele, só restou ficar molhado e as lembranças. Um colorido arco-íris formava-se perto da uma das fontes.

No dia seguinte, Rafael procurou Cíntia pela escola inteira, mas não a encontrou. Perguntou por ela às inspetoras, mas nenhuma lembrava do rosto de Cíntia. Sem Mônica (ainda de cama) e Cíntia, o dia de Rafael foi um marasmo. Mas agora ele tinha a certeza de que Cíntia era um anjo.

[.the birdcage.]

Avenida Ipiranga, por charlton_b

Avenida Ipiranga, por charlton_b

Naquela manhã, o trânsito de São Paulo estava tranquilo. Não havia passeatas, manifestações e, apesar do tempo fechado e nebuloso, não ia chover. Algumas coisas não mudam, como a pressa das pessoas em chegar ao destino, não importa ele qual seja. Muitos outros buzinavam em seus carros querendo que o da frente andasse mais rápido, motoqueiros faziam manobras perigosas e uma pomba voava a Avenida Ipiranga (mas não no cruzamento com a São João).

Se pássaros pudessem se distrair, eu diria que essa pomba estava à procura de algo incomum na cidade. Afinal, perto do metrô República costuma ter acontecimentos inesperados e, quanto mais pessoas passando, maior a probabilidade de ter mais pessoas exóticas transitando. Provavelmente, a pequena pombinha avisou uma dessas pessoas.

Se pássaros tiverem “espírito de porco”, eu diria que ela ia mirar na cabeça de alguém. Ao invés disso, ela ficou presa. Presa entre os galhos de uma árvore. Não me pergunte como; eu ainda não decifrei o mistério.

Talvez o alvo da pomba tenha sido quem chamou os bombeiros. Bombeiros? Sim, bombeiros. Eu só tinha ouvido relatos de bombeiros salvando gatos - e em histórias em quadrinhos. Mas havia um bombeiro, uma escada e uma pomba desesperada.

Numa cidade tão frenética, num dos cruzamentos mais apressados e em uma árvore tão alta, quem iria notar a pomba presa lá em cima? Ela não fazia barulho e, mesmo se fizesse, era abafada pelos carros e ônibus. O chão estava “limpo” - o máximo que um chão do centro é capaz de ficar -, então não chamou atenção de outras maneiras. Se eu acreditasse em Deus, diria que foi intervenção divina.

O fato é: tinha um bombeiro em uma escada que não era alta o suficiente para alcançar a pomba e o carro dele atrapalhando parte do trânsito. Policiais civis faziam uma espécie de cordão de isolamento, caso algo mais trágico acontecesse. Os motoristas que estavam longe da cena buzinavam muito para a fila de carros quase parados. Mas quando chegavam perto, desaceleravam para tentar ver o que atraía a multidão. provocando mais lentidão. Havia um círculo de pessoas olhando para cima tentando descobrir o que o bombeiro fazia. Infelizmente para elas, o melhor ângulo era do outro lado da rua.

Após quase cair da escada, o bombeiro salvou a pomba - ou melhor dizendo, agarrou uma asa e tirou-a dos galhos. A multidão abaixo aplaudiu. A vida parou por uns instantes por um acontecimento tão banal e inesperado. Mas quem disse que a aflição tinha terminado? O bombeiro não conseguia descer da escada e a pomba não dava sinais de vida. Nem cinco metros a frente, um motoqueiro bate - ou foi batido - em um carro com ares de importado. Agora temos motoqueiro no chão, moto meio torta, motorista bravo, pára-choques amassado, pomba semi-morta, bombeiro preso no alto de uma escada, multidão aflita e trânsito complicado, carro de bombeiro impossibilitado de dar a volta e galhos amassados e cortados.

Depois dizem que São Paulo não tem emoções.

[.crônicas da GV.]

Nº 202: Sweet Sixteen
À data de: Março / 2002
Escrito em: janeiro/2006

mother and daughter by ~PB-HASS.

mother and daughter by ~PB-HASS.

Sixteen years,
Sixteen prayers,
Sixteen reasons why I care
Sixteen tears,
You’ re sixteen still,
Sweet Sixteen…Girl *

Gustavo nunca foi do tipo muito perspicaz. E seu estado sonolento ao chegar à GV não melhorava em nada essa característica. Porém, em uma fria manhã de março, percebeu uma estranha movimentação em sua sala de aula.

Com a cara ainda fechada do mau humor matutino, via que algumas meninas cochichavam e olhavam preocupadas para algum ponto que ele ignorava.

- Ow, Rick, o que tá acontecendo aqui? - perguntava ao colega semi-dormindo com a cabeça apoiada na parede.

- Sei lá, cara… essas meninas acordaram da pá virada hoje.

Neste momento, a professora de Português entrava na sala, com o seu costumeiro “Bom Dia, alunos!” que não animava ninguém. Meio perdido entre Machados de Assis e Fernandos Pessoa, Gustavo focou no ponto ignorado por ele antes e alvo das conversas anteriores.

Era uma garota. De cabelos castanhos claros, curtos. Estava com o rosto inchado e olhos vermelhos. Não parecia estar na sala, mas em algum ponto distante no Universo. Captava alguns fragmentos de conversas:

- Jô, sabe aquela menina ali?

- Que menina?

- Aquela de blusa amarela!

- O que tem ela?

- Tão comentando por aí que ela está…

- Quietas, vocês duas aí no fundo! - gritava a professora interrompendo a conversa das meninas.

- Poxa, justo agora que elas iam falar o que tá acontecendo a… - Ricardo não chegou a terminar a frase, a professora o mandou à Maria da Glória neste exato instante.

- Mas eu não…

- Quero silêncio absoluto! Vocês estão impossíveis hoje! - dizia a professora, colocando as mãos na cintura em um claro gesto de desaprovação, enquanto Ricardo caminhava em direção à porta. Sabia que não era aconselhável discutir com essa professora.

A aula correu quase normal. Alguns alunos trocavam bilhetes, faziam alguns comentários abafados e escondidos pelos moletons. Ainda havia um certo clima de ansiedade no ar e Gustavo não entendia o porquê. O fato de Ricardo ser retirado da sala não o ajudava, já que o amigo sempre fora mais esperto que ele e tinha excelente audição.

Ser levado à Maria da Glória era algo que a grande maioria dos alunos não gostava. A distinta senhora era a coordenadora de metade das turmas de Ensino Médio e, infelizmente para muitos, ela era uma espécie de psicóloga-aconselhadora-e-queria-ser-amiga-dos-alunos ao mesmo tempo. Além disso, Mª da Glória gostava muito de falar e dar conselhos em todos os pontos na vida de todos os alunos.

Ricardo encaixava-se no perfil da maioria dos alunos. Já fora mandado à coordenação várias vezes e todas eram seguidas de um terrível arrependimento de ter cometido alguns erros. Não que se arrependesse do que havia feito; não gostava de ir à coordenadora.

- Humm… será que tem alguém no pátio? - e desceu as escadas.

She fell in love with a man who was so fine,

He made her promises
She didn’t stop to think if he was serious
Until she had his baby…Sweet Sixteen *

- COMO É? A NATÁLIA TÁ GRÁVIDA???

Esse era o espanto da maioria dos alunos quando souberam da notícia. O burburinho da sala de Ricardo e Gustavo tinha uma razão; uma de suas colegas de classe estava grávida e, como de praxe, o garoto não quis assumir a paternidade.

Na verdade, o pai da criança não era exatamente um garoto: tinha 30 anos, havia seduzido Natália ao dizer que, com ele, ela se livraria da prisão que os pais a mantinham. O homem era colega de trabalho do pai de Natália, o que não melhorava a situação para a garota.

Gustavo e Ricardo ouviram a notícia no banheiro masculino, entre a aula de português e a de física (aula dava no laboratório). Ricardo espantou-se, como demonstrado acima. Gustavo, entretanto, limitou-se a fechar os olhos e a balançar a cabeça em sinal de reprovação.

- Eu sabia que ela era uma vagabunda! - dizia um dos meninos.

- Por que você tá dizendo isso, Mauro? - perguntou Ricardo, inocente.

- Porque blá blá blá…. - Mauro começou a dizer, mas Gustavo recusou-se a continuar ouvindo tantas besteiras e inverdades sobre a garota. Não a conhecia suficientemente bem, a cumprimentava quando chegava e só. Mas nunca tivera motivos para pensar mal dela. Saíra do banheiro puxando Ricardo pelo colarinho.

- Puta merda, a menina comete um erro e é tachada de um monte de coisas… - resmungava Gustavo no caminho ao laboratório de física.

Durante a explicação da professora, os alunos se comportavam bem. Afinal, se a mulher tinha o carinhoso apelido de Chuck (em alusão ao famoso boneco assassino), não seria divertido desafiá-la. Durante a execução das tarefas, a conversa fluía dentro dos limites. Mas, especialmente hoje, o assunto era um só:

- Nossa, como ela foi irresponsável!

- Ela estragou a vida dela. E da família!

- Será que ela vai abortar?

- Bem feito, quem manda ela dar pra todo mundo?

Daughter, by ~spesiellise

Daughter, by ~spesiellise

De repente, Natália levanta-se chorando e sai da sala correndo. Ouviru todos os comentários e não agüentava mais. A professora não entendeu o que aconteceu e perguntou a um aluno. Após a explicação, Chuck olhava para a porta de forma desolada.

- Ela nunca fez mal pra ninguém, o que esse pessoal está fazendo? - indignava-se Ricardo, aos sussurros em uma das mesas.

- Quem mandou ela transar sem camisinha? - respondia, em voz alta, um garoto intrometido e arrogante, chamado Carlos.

- Ah, cala a boca! E quem mandou você ser um idiota completo? - rebateu Ricardo, recebendo aplausos de parte da classe e da professora, que não suportava o jeito de Carlos.

I know your feeling lonely,

Who you’ re gonna turn to,
feels like the world closing in on you
Sweet Sixteen,
You need to cherish what you have,
You can forget about the past
Now you can start all over,
and cherish your life

A notícia da gravidez de uma aluna espalhou-se rapidamente por toda a escola. Até o intervalo, praticamente todo mundo sabia que havia uma grávida entre eles. Maria da Glória procurava desesperadamente a “menina dos boatos” pelos corredores da escola.

- Ah, uma garota do segundo ano! - diziam no pátio.

E, alguns repetiam o mesmo discurso ouvido na sala de Gustavo e Ricardo.

Várias garotas foram solidárias à Natália, embora a mesma não soubesse, por estar chorando no banheiro, junto de suas amigas. Muitas confrontavam garotos e garotas em seus comentários machistas e discutiam sobre aborto, gravidez na adolescência, gravidez em geral. Incrível como esse assunto desperta um interesse maior das mulheres.

- Ela é uma idiota! Ao invés de estudar, se enroscou com um qualquer aí e olha só no que deu! Grávida! De um cara que ela mal conhece! Uma va… - era Carlos discutindo com amigos o acontecido. Porém nunca terminou a frase, pois recebeu um soco de direita de Mônica, que acompanhava o discurso do garoto e há tempos se irritara com o comportamento dele.

Rafael, caindo aos risos junto de outros alunos, acompanhou Mônica até o banheiro feminino em que Natália encontrava-se. Mas, assim como alguns garotos, não ousara adentrar o recinto.

- Eu entendo o que você sente, Natália - Mônica começou a dizer, olhando a garota com pena - eu nasci quando minha mãe tinha 16 anos; engravidou de um cafajeste que nunca quis saber de mim. Enfrentou mó barra, minha avó queria que minha mãe abortasse. Mas ela não quis. Preferiu ter a criança. Por sorte, meu avô ajudou minha mãe a se sustentar até que ela fosse independente financeiramente… Até hoje a relação da minha avó com a minha mãe é bem delicada, um saco.

Partilhando do sentimento, uma das faxineiras que cuidavam daquele banheiro acariciava os cabelos de Natália. A moça lembrou-se dela mesma, com quase a mesma idade. Da filha que teve e que abandonou por pressão da família do pai da criança. Seu maior arrependimento. Algumas meninas já estava com os olhos marejados. O barulho estridente do sinal as trouxe de volta ao mundo real, mas poucas foram as que voltaram para a sala.

* Fragmentos da música “Sweet Sixteeen”, de Destiny’s Child.

O silêncio não é careca nem cabeludo,
Nem magro nem barrigudo.

Trecho de poema feito pela Vica. E não tem nada a ver com o texto abaixo; só é bonitinho!

Chuva em São Paulo, do meu arquivo pessoal.

Chuva em São Paulo, do meu arquivo pessoal.

Quando anunciam o fim do mundo ou é num presente ou num futuro muito distante. Bombas, profecias, apocalipse, aquecimento global. Vi em um blog anteontem que o fim do mundo seria no dia 08/08/08. No mesmo dia, a notícia foi desmentida e o fim do mundo passou a ser no dia 10 de setembro. Por quê esse adiamento? Porque a máquina que irá nos destruir não está totalmente pronta.

E então o buraco negro que engoliria a Terra fica cada vez mais longe. Provavelmente ouviremos o rumor da nossa destruição até morrermos. E não veremos esse acontecimento ser transmitido pela internet ou qualquer outro modo de comunicação que inventarem até lá. Talvez sejamos espectadores de um evento que nunca irá ocorrer e não será tão espetacular quanto as produções de Hollywood nos fazem acreditar. Não teremos um Tom Cruise ou um Jack Bauer a nos salvar e não veremos o Exterminador do Futuro cumprir sua missão. A Natureza é mais forte, os asteróides também, os cientistas são malucos que não se importam em acabar com os humanos (e eles próprios) em nome da ciência.

Dia 08/08/08, uma data importante para os chineses e esportistas. As Olimpíadas de Pequim estão oficialmente começando. Daqui um tempo, poderemos assistir eventos grandiosos como este praticamente estando lá, por meio de hologramas. Ou com magias no melhor estilo Harry Potter. Eu ainda não acordei cedo para ver jogo algum de esporte algum, ouvi umas coisas do basquete indo para a faculdade e só. Mas saí da aula e fiquei me esmagando na praça de alimentação tentando ver a cerimônia de abertura.

Daqui a 88 anos, a minha geração - a chamada Geração Y ou Z, dependendo da publicação - será como a Dercy Gonçalves; estaremos com cento e poucos anos, praticamente esperando a hora de deitar no caixão. Teremos feito muito pelo mundo, talvez nós sejamos a geração que terminará por destruir a Terra. Me preocupo? Não. Muitos de nós não chegarão a essa idade por fatores pós-modernos: morreremos de ataques cardíacos decorrente do estresse do dia-a-dia. Comemos fast-food, ficamos o dia todo sentados olhando para o monitor, teremos atrofia muscular, reumatismo e seremos corcundas e esquizofrênicos no melhor estilo Coringa.

Talvez seguiremos a onda dos “avós mais jovens”. Caminharemos todos os dias no Parque do Ibirapuera, jogaremos xadrez, leremos muitos livros e teremos uma vida sexual ativa. Grandes prazeres do mundo moderno! Olharemos no espelho e não mais veremos cabelos grisalhos e senhores prontos para a aposentadoria, mas jovens senhores com muita energia ainda. Veremos? Seremos?

Quando tínhamos 8 anos, a nossa preocupação maior era em não perder o Jaspion, Changeman e outros programas que marcaram nossa feliz infância, talvez a última que teve uma infância ainda livre de computadores, celulares e competição para ver quem tem o maior poder aquisitivo. Nossas competições eram sobre quem tinha o estojo com mais canetas coloridas. Não tínhamos orkut, MSN (mal tínhamos ICQ e computadores em casa) e a maior diversão nos primórdios da web era navegar em salas de bate-papo e zoar os participantes. Pelo menos, é o padrão que observo em meus amigos. Das duas uma: ou minha geração é menos encanada com problemas da internet e desde sempre soube usar com mais responsabilidade ou eu sempre vivi rodeada por nerds. Fico com a segunda.

Em 2088 ainda estaremos conectados freneticamente, desfrutando das regalias que a velhice nos concede. Continuaremos a marcar programas com amigos pela web, continuaremos a postar curiosidades em blogs (ou outra ferramenta parecida) e teremos todas as doenças que nossos avós têm hoje, pois não fomos manipulados geneticamente para remover os genes defeituosos. Mas nossos netos e bisnetos deverão ser perfeitos (e não apenas aos nossos olhos). Provavelmente faremos cirurgias plásticas, colocaremos botox e envelheceremos sem reconhecer nosso rosto ao olhar em um espelho. A tecnologia apagará os traços da idade, apagará também a nossa sabedoria e personalidade?

Mais sobre o fim do mundo:

http://rabsblog.blogspot.com
http://dobaoh.blogspot.com

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